Jacarezinho e a operação policial que resultou em chacina

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Por Inédita Brasil 

Hoje, mais uma vez, uma comunidade carioca acordou ao som terrível dos tiros de fuzil policial. Na zona norte da capital fluminense, no Jacarezinho, a Polícia Civil (PC) fez uma operação que terminou com pelo menos até agora, vinte e cinco mortos. Imagens circulam pelas redes sociais, com casas invadidas, móveis quebrados e inundadas de sangue. Quem esteve por lá, relata que a situação do número de vítimas pode ser bem maior e condena a conduta dos policiais. 

Novos vídeos que circulam na internet mostram helicópteros da Polícia Civil sobrevoando a área desde cedo e é possível avistar pessoas feridas se escondendo em uma estação de metrô, pois foram pegos de surpresa, pela invasão policial, enquanto se deslocavam para o trabalho. 

A operação aconteceu um dia após o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, se encontrar com o presidente Bolsonaro. Agenda pouco divulgada. Importante dizer que Bolsonaro saiu de Brasília num momento de enormes pressões, por conta da CPI da COVID-19 no Senado.

Operação ou invasão?
Denominada como operação Exceptis, ela foi feita pela Polícia Civil do Estado, sob responsabilidade da Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA), que justificou por ter recebido informações de aliciamento de crianças e adolescentes para integrar a facção que domina o território”.

Além de provocar cenas de extremo horror aos moradores de comunidades, essas operações “contra o tráfico” são buracos sem fundo de desperdício de dinheiro público e obviamente, confirmação do caráter racista e do despreparo das policias no país inteiro.  

O projeto Drogas: Quanto Custa Proibir que iniciou uma análise dos custos desse tipo de operações no RJ e em SP, divulgou que só em 2017, o Estado do Rio de Janeiro gastou com a “Despesa com aplicação da Lei de Drogas”, o montante de R$ 1.050.826.606, dinheiro que poderia ter sido investido em educação de 252 mil alunos em uma escola do ensino médio ou ainda, na construção de 121 escolas, para mais de 77 mil novos alunos. 


Daria também para custear, por um ano inteiro, a educação universitária de mais de 32 mil alunos na UERJ, manter o funcionamento de 81 Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) em favelas e periferias, adquirir mais de 5.850 ambulâncias com UTI móvel ou garantir por um ano o funcionamento de cinco hospitais estaduais de referência como o Hospital Getúlio Vargas, por último falando em tempos de pandemia, seria possível comprar 36 milhões de doses da vacina AstraZeneca, suficientes para vacinar 18 milhões de pessoas contra a Covid-19. Vergonha! 

Joel Luiz Costa, advogado criminal, foi até a comunidade e contou , por meio de suas redes sociais “entramos em uma cinco ou seis casas, todas com a mesma dinâmica, sabe. Casas arrombadas, tiro de execução, sem tiros de troca”. 

Reprodução de Joel Luiz Costa

Já a deputada estadual do PSOL, Renata Souza, também se pronunciou “Não temos pena de morte no Brasil. Portanto, não é a polícia que deve definir quem é que deve viver ou morrer em nossa sociedade. Tivemos uma chacina no Jacarezinho e ela precisa ser investigada”.

Em agosto de 2020, o STF confirmou a decisão liminar do ministro Edson Fachin, por 9 a 2, que proibiu operações policiais nas favelas do Rio de Janeiro durante a pandemia de COVID19. Na decisão de julho de 2020, em seu voto o ministro Fachin, que foi o relator, determinou  “que, sob pena de responsabilização civil e criminal, não se realizem operações policiais em comunidades do Rio de Janeiro durante a epidemia do COVID-19, salvo em hipóteses absolutamente excepcionais, que devem ser devidamente justificadas por escrito pela autoridade competente, com a comunicação  imediata ao Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro – responsável pelo controle externo da atividade policial; e (ii) que, nos casos extraordinários de realização dessas operações durante a pandemia, sejam adotados cuidados excepcionais, devidamente identificados por escrito pela autoridade competente, para não colocar em risco ainda maior população, a prestação de serviços públicos sanitários e o desempenho de atividades de ajuda humanitária”.


Já na tarde de hoje, os moradores do Jacarezinho realizaram atos pedindo por justiça e contra a violência policial. Lá se encontraram e fizeram barricadas nas principais vias de acesso para a comunidade. E já estão programadas novas manifestações para amanhã logo cedo! 

A Inédita Brasil acompanhará amanhã, direto do  Jacarezinho, toda a movimentação. 

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