Lula: “Os fascistas são apenas uma minoria”

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 Em entrevista à revista Paris Match, o ex-presidente diz que está pronto para lutar pela democracia. E admite que pode ser o candidato à Presidência. “Se estou na melhor posição para vencer e com boa saúde, não hesitarei. Acho que fui um bom presidente”

Dez anos de turbulência judicial, incluindo dezenove meses na prisão, não tiraram o melhor de seu otimismo e seu espírito de luta. O ex-trabalhador, símbolo da esquerda brasileira, está de volta. Em março, o Supremo Tribunal Federal do Brasil anulou suas condenações por corrupção e restaurou sua elegibilidade. Aos 75 anos, o ex-presidente não está imune a novos processos. Em um país atingido pela crise econômica e de saúde, ele diz que está pronto para lutar acima de tudo pela democracia. Hoje, ele remove oficialmente a dúvida. Reencontrar Lula na época do coronavírus é um desafio. Para marcar uma conversa, ele teve que esperar até receber suas duas doses da vacina e então o sinal verde de seus médicos.

Uma vez que todas as suas sentenças de prisão de 20 anos foram anuladas em março, ele mais uma vez pode ter todas as ambições. Nas despretensiosas instalações do instituto que leva seu nome, no coração de um bairro operário de São Paulo, Lula aparece antes de seu tempo, voz áspera e caloroso aceno de cabeça. Sua barba ficou branca, mas, sob a máscara vermelha estampada com a estrela do Partido dos Trabalhadores, sua determinação permanece intacta. Aos 75 anos, curado da Covid que descobriu em Cuba, o ex-siderúrgico se revela, com pressa de livrar seu país de Jair Bolsonaro. Às caminhadas que o tornaram famoso, agora ele prefere as redes sociais. Oficialmente, o presidente está liderando uma campanha cautelosa por causa da pandemia. Sem ignorar as ameaças de morte que pairam sobre ele. A volta do ícone da esquerda brasileira desperta uma mistura explosiva de esperança e ódio.

Paris Match. A situação da saúde parece fora de controle no Brasil, com um número oficial de mortos de mais de 400.000. Como você acha que a gestão de Jair Bolsonaro da pandemia revela sua visão para a sociedade?
Lula da Silva – Assim que a Covid apareceu na China, o Brasil deveria ter se organizado criando um comitê de crise reunindo o Ministro da Saúde, as autoridades federais, nossos principais laboratórios e nossos cientistas.

BOLSONARO É O RESPONSÁVEL DIRETO POR PELO MENOS METADE DAS MORTES QUE PODERIAM TER SIDO EVITADAS. ELE NÃO LEVA A COVID A SÉRIO

No entanto, a primeira reação do nosso presidente foi negar sua seriedade. Afirmava que não era nada, só uma “gripe que mataria velhos, ousando mesmo afirmar que, sendo atlético, ele mesmo não tinha medo de nada! Aí recomendou o uso da cloroquina, agora comprovada cientificamente que não surte efeito. Em várias ocasiões, na frente das câmeras, Bolsonaro encorajou as pessoas a pegá-lo, forçando sucessivos ministros da Saúde a imitá-lo. Também exortou seus partidários a não usarem máscaras durante as manifestações públicas e falou contra o confinamento. Disse que era coisa para maricas, acrescentando que um homem, de verdade, tinha que sair na rua. Em suma, ele era totalmente irresponsável. E ele é, na minha opinião, o responsável direto por pelo menos metade das mortes que poderiam ter sido evitadas. Ainda hoje, Bolsonaro continua a não levar a Covid a sério, a atacar a China, a subestimar a importância das vacinas e acreditar na imunidade coletiva. Ele está indo na contramão, desafiando a comunidade científica e as diretrizes da Organização Mundial da Saúde.

Você acha que ele será responsabilizado perante a justiça por essas mortes?
Devemos aguardar as conclusões da comissão parlamentar de inquérito encarregada de examinar as medidas tomadas pelo governo e pelo Ministério da Saúde. Mas em qualquer país onde a democracia funciona normalmente, Bolsonaro, que é alvo de uma centena de pedidos de impeachment, já teria deixado de ser presidente da República. Infelizmente, o presidente da Câmara dos Deputados não colocou nenhum deles à votação.

 Você disse que queria se envolver no gerenciamento da crise de saúde. Como você planeja fazer isso?
Esta pandemia me parece tão séria quanto uma guerra, exceto que o inimigo é invisível. Vejo o surgimento desse vírus em constante mutação como um ataque da natureza contra a humanidade. Estamos pagando o preço por nosso desrespeito a ela. Até que haja vacinas suficientes, não podemos vencer. Alerto constantemente para a necessidade de levantar patentes para que 7,8 bilhões de seres humanos possam se beneficiar com a vacina. Enquanto apenas os países ricos puderem comprá-lo para seu povo e os dos países pobres morrerem, ninguém ficará à vontade. Durante a crise econômica de 2008-2009, mais de dez reuniões foram realizadas dentro do G20 em torno da falência do Lehman Brothers. Nenhuma, até o momento, para coordenar a batalha contra a Covid. Acho um absurdo que todos, em um momento, se preocupem apenas com seus próprios interesses. O mundo é redondo, a terra gira; então, inevitavelmente, o vírus se espalha. É urgente implementar uma política abrangente contra ela.

Convidou o presidente Macron a convocar uma reunião do G20 sobre este assunto. Quando ele foi eleito, você sentiu que ele não era o “cara ideal”… Como vão as suas relações?
Não temos nenhum relacionamento, uma vez que não sou sua contraparte. Durante minha Presidência, tive numerosos encontros com seus antecessores, Nicolas Sarkozy e o companheiro François Hollande. Também gosto muito de Anne Hidalgo e espero que um dia ela seja a primeira mulher presidente da França. O interlocutor de Macron é Bolsonaro. O fato de este último ter sido desrespeitoso com ele [ao criticar a beleza física de sua esposa nas redes sociais] não deve ser um obstáculo para a relação bilateral. Os chefes de Estado não precisam apreciar uns aos outros, eles devem ter em mente interesses estratégicos comuns. A relação entre nossos dois países sempre foi excepcional. Isso deve continuar, apesar das diferenças ocasionais.

Junto com a crise da saúde, o Brasil entrou em uma fase de instabilidade política. Muitos temem que Bolsonaro use os militares para permanecer no poder. Você teme um golpe militar, como em 1964?
Os fascistas são apenas uma minoria. Bolsonaro não é democrata, mas a maioria do povo brasileiro é. É por isso que penso que independentemente da sua vontade haverá eleições em 2022 e que ele as perderá.

 Então você está otimista?
Não só: estou lutando por isso. Sou um soldado nesta luta pela democracia e não terei um momento de trégua até que Bolsonaro seja derrotado. Eu me sinto como aqueles lutadores da resistência francesa que lutaram contra o nazismo durante a Segunda Guerra Mundial…

NÃO ESTOU SÓ. SOU UM SOLDADO NESTA LUTA PELA DEMOCRACIA E NÃO TEREI UM MOMENTO DE TRÉGUA ATÉ QUE BOLSONARO SEJA DERROTADO

É uma forma de anunciar oficialmente sua candidatura às eleições presidenciais de 2022?
Se estou na melhor posição para vencer e com boa saúde, sim, não hesitarei. Acho que fui um bom presidente. Criei laços fortes com a Europa, América do Sul, África, Estados Unidos, China, Rússia. Sob meu mandato, o Brasil tornou-se um importante ator no cenário mundial, notadamente criando pontes entre a América do Sul, África e os países árabes, com o objetivo de estabelecer e fortalecer uma relação Sul-Sul e demonstrar que o predomínio geopolítico do Norte não foi inexorável.

Bolsonaro foi eleito com a promessa de trazer ordem às favelas. A polícia é a solução nessas áreas difíceis?
Bolsonaro prega a violência e pretende reinar através do terror. Ele nunca se escondeu de não gostar de movimentos sociais, sindicatos, partidos de esquerda, feministas, negros, movimentos indígenas… Basicamente, todos aqueles que defendem a democracia. Ele sempre pensou que um bom criminoso era um criminoso morto. Sua prioridade como presidente não é melhorar o acesso à educação, mas liberar o porte de armas de fogo! [Ele bate com o punho na mesa.] Ele garantiu que cada cidadão pudesse comprar quatro pistolas!

A polícia deve continuar a intervir nesses bairros?
A polícia deve cumprir seu papel sem se tornar assassina. Antes de matar um ser humano, existem outras opções: questioná-lo, julgá-lo, condená-lo. Mas Bolsonaro não quer parar: ele quer matar. A retórica de que devemos eliminar os criminosos para proteger pessoas decentes é lugar-comum entre a direita brasileira. Devemos proteger as pessoas punindo os criminosos de acordo com a lei. Isso é tudo. [Ele bate na mesa novamente.]

Qual foi sua reação quando o juiz da Suprema Corte Edson Fachin anulou sua sentença de mais de 20 anos de prisão por corrupção?
Já em 2016, quando recorremos, minha defesa denunciava tudo o que era revelado pela investigação publicada pelo “The Intercept” [uma revista investigativa internacional]. Infelizmente, a Suprema Corte demorou cinco anos para decidir. Continuo a desafiar qualquer pessoa – juiz, promotor, policial – a fornecer qualquer prova de um único crime que cometi. Meu único crime foi ser presidente do Brasil, eu o torneiro-mecânico sem diploma, e liderar a maior política de inclusão social que este país teve. Cometi o crime de ser o presidente que mais construiu universidades na história do Brasil; cometi o crime de permitir que os filhos dos pedreiros se tornassem engenheiros, os filhos das camareiras se tornassem médicos. Sob minha Presidência, o salário mínimo foi o que mais cresceu. Tiramos 36 milhões de pessoas da pobreza absoluta e possibilitamos a entrada de mais 40 milhões na classe média. É por isso que fui preso, acusado e impedido de aparecer em 2018.

Foto: Ricardo Stuckert

ENCONTRO Na quinta-feira, 20, os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e Lula se encontraram em São Paulo num almoço, a convite do ex-ministro Nelson Jobim. No cardápio, a defesa da democracia e o descaso do governo Bolsonaro no enfrentamento da pandemia de Covid-19.

O senhor considera que o juiz Sérgio Moro, que o condenou e acaba de ser considerado culpado de parcialidade, trabalhava para o Bolsonaro, do qual era então ministro da Justiça?
Durante meu primeiro testemunho, eu disse ao juiz Moro: “Você está condenado a me condenar porque a mentira foi longe demais e você não tem como voltar atrás”. Essa mentira realmente envolveu um juiz, promotores e a grande mídia do país, os quais me condenaram antes mesmo de eu ser julgado. O que eles não sabiam é que estou pronto para lutar até o último suspiro para provar que se uniram para me impedir de ir às eleições.

Você foi eleito o líder mais influente do planeta pela revista “Time” em 2010, e elogiado por Obama, antes de ser enviado para a prisão. Como você vivenciou essa queda vertiginosa?
Eu segurei, porque estava convencido de minha inocência. É por isso que me recusei a trocar minha dignidade pela minha liberdade. Quando me ofereceram para ficar em prisão domiciliar com a condição de usar uma pulseira eletrônica, eu disse não. Não sou um pombo-correio e minha casa não é uma prisão.

Esse tempo na prisão mudou você?
Se eu dissesse não, estaria mentindo. Aprendi a ser mais generoso, a não acumular ódio, porque quem sofre disso não é aquele que você odeia, mas a si mesmo. Eu leio muito. As pessoas que vinham me visitar chegavam tristes e deprimidas. Eu é que tinha que animá-las. Graças a Deus, tive a sorte de os trabalhadores deste país cuidarem de mim nestes 580 dias de detenção. Mulheres, crianças, idosos… o Brasil inteiro ficou ao meu lado! Todas as manhãs gritavam “Olá, presidente Lula!” para me dar força. Não tive tempo nem direito de sentir pena de mim mesmo. Estou muito grato por esta demonstração de solidariedade, inclusive de meus amigos ao redor do mundo. Até o companheiro Mélenchon veio me visitar.

A mídia o acusa de ser milionário, você, o “pai dos pobres”. Do que você está vivendo hoje?
Vivo do salário que me paga pelo PT. Todos os meus pertences foram apreendidos e congelados há cinco anos. Mesmo os de minha falecida esposa, que meus filhos herdaram, ainda estão presos. Mas eu permaneço paciente. Meus problemas pessoais são pequenos aos olhos do povo brasileiro, que está morrendo de fome e de Covid. Não estou pedindo muito, não sou ambicioso. Não estou tentando roubar os ricos, só quero ajudar os brasileiros a recuperarem seus direitos de cidadãos. Que todos possam tomar um café e almoçar todos os dias, ter acesso a educação de qualidade, cultura, saúde, moradia…

O que resta de seus grandes programas icônicos como “Fome Zero” ou Bolsa Família, de que o Brasil tanto se orgulha?
Quando fui presidente da República, várias pesquisas de opinião mostravam que o povo brasileiro era o mais feliz do mundo. O Brasil se tornou uma espécie de queridinho. Erradicamos a fome, criamos 22 milhões de empregos. A vida das pessoas estava finalmente melhorando. Infelizmente, tudo isso acabou. No lugar do amor surgiu o ódio.

Seus objetivos sociais o levaram a negligenciar outras batalhas, como a ecologia ou a luta contra a corrupção. Você reconhece algum erro?
Muito não foi feito. Mas é importante lembrar que na minha época, em Copenhague, durante a Cop15, nosso país se comprometeu em reduzir o desmatamento em 80%, e assim fizemos. Assim como aceleramos as pesquisas no campo da energia limpa. Fui o presidente que, junto com a Alemanha e a Noruega, montou o fundo de proteção da Amazônia, sem que o Brasil abrisse mão de sua soberania territorial.

Alguns acreditam que um de seus maiores erros foi escolher Dilma Rousseff para sucedê-lo. Você concorda?
Se eu me encontrasse hoje na mesma situação de 2010, faria essa escolha. Dilma é uma mulher excepcional, muito competente e leal, 100% dedicada ao seu país. Imaginei que seria mais fácil para ela aprender política, mas não foi fácil. Talvez por causa de sua formação ou do time que ela montou. Sem dúvida ela cometeu erros que a levaram à demissão, mas acima de tudo ela foi vítima de um complô para derrubá-la.

O Partido dos Trabalhadores fez 40 anos no ano passado. Em um contexto de corrupção e crise econômica, muitos de seus eleitores se voltaram para Jair Bolsonaro… Como restaurar a confiança desse eleitorado decepcionado?
O PT provavelmente cometeu erros, mas a vitória de Bolsonaro não pode ser atribuída a eles. Os culpados são a direita, a mídia e as elites que passaram uma década rejeitando totalmente nossa política, criando um clima favorável ao pior. Desde que as eleições foram restabelecidas no Brasil em 1989, o PT sempre esteve presente no segundo turno. Quando você pergunta ao povo brasileiro nas pesquisas qual é o seu partido preferido, mais de 20% responde o PT. Além da China e de Cuba, é o maior partido de esquerda do mundo.

QUANDO FUI PRESIDENTE DA REPÚBLICA, VÁRIAS PESQUISAS DE OPINIÃO MOSTRAVAM QUE O POVO BRASILEIRO ERA O MAIS FELIZ DO MUNDO

Você era próximo de Fidel Castro e Hugo Chávez. Cuba e Venezuela continuam sendo modelos desde seu desaparecimento?
Cuba e Venezuela nunca foram modelos para mim. Não podemos resumir meus laços de amizade com Fidel ou Chávez: também tive excelentes relações com Chirac, Sarkozy, Angela Merkel, Putin, Hu Jintao, Bush, Obama e todos os presidentes da América Latina. Posto isto, continuo a ser um fervoroso admirador da revolução cubana, a única verdadeira. Fidel Castro, de dignidade ímpar, era um mito vivo. Nunca aceitei que nenhum país, especialmente europeu, desse lições a Cuba ou à Venezuela em nome do direito dos povos à autodeterminação. Para manter a paz em nosso querido planeta, todos devem respeitá-la.

No Brasil, a corrupção parece ser endêmica. Existe uma fatalidade em querer ficar rico por todos os meios quando você chega ao poder?
Você pode me falar sobre um país poupado da corrupção? Se muitos escândalos foram denunciados no Brasil, é justamente porque o PT garantiu que eles viessem à tona e que nada impedisse as investigações judiciais. O PT criou as ferramentas de combate à corrupção, ao contrário do governo atual. Nada foi varrido para debaixo do tapete!

Você teme uma violenta campanha presidencial contra Bolsonaro?
A pandemia me impede de fazer reuniões: estou vacinado, felizmente, mas a maioria dos brasileiros não. Assim que tiver a chance, irei viajar pelo país. A melhor resposta à violência de Bolsonaro é fazer campanha pacificamente e não jogar seu jogo.

 Presidente Lula em 2022, é possível?
Sim é possível. Basta fazer a pergunta ao povo brasileiro.

De: Fundação Perseu Abramo  – REVISTA FOCUS BRASIL

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