É hora de correr atrás do tempo perdido. Dá tempo.

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Por Daiane Dultra

Não adianta mais somente reduzir os nossos impactos negativos no planeta. Ou promovemos uma grande quantidade de ações positivas para equilibrar a forma danosa como habitamos ou dificilmente conseguiremos reverter a crise climática e garantir recursos suficientes para a sobrevivência de todas as espécies.   

A pandemia escancarou muitos erros de percursos dos seres humanos na relação que foi construída com o meio ambiente. Fruto de um sistema que extrai e descarta para seu interesse próprio, a economia linear, que é a que vivemos, não mais responde às nossas necessidades, menos ainda ao da natureza.

Alguns meses de lockdown foram suficientes para proporcionar um suspiro ao planeta, que conseguiu, por exemplo, reproduzir algumas espécies ameaçadas de extinção. Uma semana depois da quarentena, cidades como São Paulo reduziram a poluição pela metade e impactos como estes se multiplicaram ao longo do período e nos permitiu refletir sobre o quão danoso é a nossa presença para a existência de outras espécies. 

Ativistas e especialistas já alertavam décadas atrás para a necessidade de reduzir o nosso impacto ambiental no planeta como condição para garantir um futuro para as próximas gerações. Passado esse tempo, continuamos ouvindo as promessas de líderes mundiais com o compromisso na diminuição da emissão de carbono, redução da poluição e práticas mais sustentáveis. Promessas estas que em sua grande parte não foram cumpridas. E, aquelas que foram cumpridas, não deram conta do tamanho da mudança que precisamos fazer para coexistir com o planeta. 

No momento em que estamos, causar menos impacto à Terra com a nossa ação não é suficiente para desacelerar a destruição global dos ecossistemas e reconciliar a economia com os ecossistemas que nos hospedam. Precisamos desenvolver uma quantidade volumosa de ações com impacto positivo para compensar os danos que causamos. A estratégia é outra.

A pandemia não é a primeira forma de manifestação do planeta avisando que está no seu limite. A capacidade de regeneração do planeta já está comprometida e a tendência é que a frequência de eventos como enchentes, secas, escassez de água, terremotos e outras doenças aconteçam numa escola igual ou maior do que vivemos hoje. 

A economia circular e regenerativa é uma nova lente para lidar com o mundo e é uma das alternativas viáveis para responder à gravidade da crise climática. Ela se baseia em uma dinâmica positiva e se inspira no mecanismo dos próprios ecossistemas naturais. A ideia é tirar o conceito de “lixo” que temos  e substituir por uma visão mais contínua e cíclica de produção, na qual os recursos deixam de ser somente explorados e descartados e passam a ser reaproveitados em um novo ciclo. O método que as cidades usam hoje de destinar grande parte dos seus resíduos aos aterros não são mais sustentáveis para a nossa vida urbana. Hoje, no Brasil, temos uma taxa de reciclagem de apenas 3% e  um terço de todo alimento produzido é desperdiçado, um país que marca presença no mapa da fome. 

O nosso modo de vida é inadequado e desconectado dos ecossistemas dos quais fazemos parte. Em nossas casas precisamos tratar de forma diferente o lixo, separar de forma correta os materiais recicláveis, adotar a compostagem doméstica, consumir de empresas que adotem práticas sustentáveis e cobrar uma mudança radical nas políticas. 

As empresas e os governos são os maiores agentes da destruição. Eles impactam negativamente o planeta e alimentam um sistema que promove ainda mais desigualdade e injustiça social. O caso dos Yanomami e Munduruku no Brasil ilustra bem um governo que não tem comprometimento nenhum com a causa socioambiental. Um governo que deveria tomar medidas para proteger a terra dos povos e não atacá-los.

Já as empresas precisam ir à ação e incluir a noção de circularidade na concepção e produção dos produtos. A economia circular propõe o uso da metodologia de design C2C/Cradle to Cradle (do berço ao berço). Ela estabelece a criação de produtos, materiais, componentes e processos industriais por sistemas cíclicos aproveitando ao máximo seu valor. O objetivo é que, em curto prazo, a produção de um produto como um carro, que tem 95% de material não-reciclável, não faça mais sentido em existir. No momento em que estamos, não basta que as empresas gerem ações menos destrutivas, é necessário que sejam uma força positiva para que a natureza, economia e sociedade convivam em harmonia. 

A economia regenerativa sugere que atuemos em cooperação e não em competição para que seja viável adotar uma economia que promova o bem-viver dos povos e do meio ambiente. Se existem resistências, me parece que chegamos em uma encruzilhada onde a mudança não é mais uma opção. A lógica da economia circular e regenerativa é fator condicionante para aumentar as nossas chances de diminuir o impacto das nossas escolhas até hoje na saúde do planeta.

Líderes mundiais já estão sinalizando para que essa mudança seja um pacto global, mas ainda de forma tímida e talvez sem consistência e volume que dê tempo. Políticas públicas positivas para uma economia que valorize a vida e não a destruição precisam emergir. O Brasil, que une as melhores condições de fazer as mudanças necessárias para o futuro verde, está na contramão de tudo. Hoje é o 7º emissor de gás carbônico no mundo, sucateia órgãos públicos, permite o avanço do garimpo ilegal, faz eclodir conflitos, desmata a nossa maior riqueza. 

A regeneração dos ecossistemas é a nossa maior e talvez única chance. Tenho dúvidas se vamos ser capazes de fazer as escolhas corretas desde já, mas o desafio está posto. Reprogramar a rota é a nossa agenda individual e coletiva. Está na ordem do dia. 

E você, o que você vai fazer de positivo pelo planeta hoje?

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