A vacina salva vidas e a arte salva almas: Jacarés ou Cucas, precisamos sobreviver!

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Por: Natanael Duarte de Azevedo

A ideia original de estreia dessa coluna era tentar mostrar como a arte, em especial a literatura e o cinema, reverbera ao longo da história em nossas vidas através de posicionamentos ou ações que tomamos na convivência em comunidade. Mas não consegui me furtar à realidade de mais de 444 mil mortes (dados de 20 de maio de 2021) no Brasil e tentar fugir para um futuro distópico no qual não tivéssemos passando por uma tragédia anunciada que arrancasse os sorrisos de muitas famílias.

O crítico literário e sociólogo Antonio Candido (1972) nos ensinou que “a instrução dos países civilizados sempre se baseou nas letras” e que a literatura “age com o impacto indiscriminado da própria vida (…) com altos e baixos, luzes e sombras” (p. 805). Não à toa, os moralistas que temem o poder e a riqueza da literatura tentam “expulsá-la como fonte de perversão e subversão, ou [tentam] acomodá-la na bitola ideológica dos catecismos” (p. 805). A literatura se faz arma contra a ignorância e pode pôr em xeque um modelo de estado que sustenta sua ideologia numa necropolítica, decidindo que corpos podem viver ou morrer e quais pensamentos podem se consagrar ou ser silenciados.

O erro do ignorante, ou a falta de leitura e de contato com este fantasma (a literatura) que assusta e faz os olhos dos incultos arderem, é subestimar que a arte encontra caminhos de consolidação e aproveita as táticas do leitor para se fazer vida presente no seio da sociedade, ou, tomando a palavra do mestre Antonio Candido, a literatura “humaniza no sentido profundo, porque faz viver” (p. 806).

  O pecado do ignorante é tentar quantificar em valores monetários as milhares de vidas que partiram e as milhões de pessoas que “insistem” em ficar em casa, atravancando o mercado e a economia do país. Ora, para que investir na cultura e não taxar o mercado livreiro? Afinal, se estamos no meio de uma pandemia, as nossas prioridades são outras, em especial, a compra de vacinas para salvar o povo!

Pois bem, caro leitor, nós estamos no Brasil e esse não é um país para amadores. Não tivemos investimento na cultura, nossos livros correm o risco de sofrerem grandes taxações, mas vejam só: também não temos vacinas a contento para imunização da população brasileira!

Ah, mas estão direcionando os esforços e a economia para o desenvolvimento científico e para pesquisas que nos tragam a cura? Também não! Os cortes financeiros nos centros de fomento de pesquisa e nas universidades públicas federais são desastrosos.

O que estamos vivenciando é uma prática ultra-neo-liberal que busca sucatear os espaços de consagração da intelectualidade e da crítica. Não à toa, todo estado totalitário cerceia movimentos artísticos, movimentos sociais, comunidade universitária, imprensa e demais grupos sociais que tentam fazer o povo refletir, questionar e lutar por seus direitos democráticos. 

 Faço aqui uma advertência muito importante que merece destaque. Estou contextualizando até aqui a parcela privilegiada da sociedade. Aquela que pode exercer o seu direito de proteção, mantendo o distanciamento social e evitando sair para lugares públicos e com circulação de pessoas. Não podemos ignorar jamais a realidade da desigualdade econômica, étnico-racial e de gênero que está na gênese de nossa história. A arte não vai alimentar o estômago com fome, a música não vai aliviar o dor de quem não tem o que comer e a literatura não vai acalantar as almas que estão sofrendo em hospitais lotados e sempre na iminência da falta de cilindro de oxigênio e de kits para intubação.

Mas nossa defesa é que cada indivíduo tenha acesso aos bens culturais que são seus por direito e que políticas que alimentam a segregação e a desigualdade social não mais permaneçam no poder. Não podemos insistir em práticas irresponsáveis que só aumentam o abismo social em que vivemos e que levam a população a imunizações de rebanho que só elevam o número de mortos em nosso país.

O temor do ignorante é exatamente que a sociedade seja crítica e a velha política do pão e circo venha a perder espaços nas eleições. É o medo do professor que incentiva a leitura, da doméstica que viaja e aprende a partir de transferências culturais outros modos de cidadania, do artista que através de sua arte empodera grupos que não aceitam mais viver à margem da sociedade nem nas sombras dos silenciamentos, do zelador ou do pedreiro que decide incentivar seus filhos a entrarem numa universidade etc.

Para a parcela privilegiada da sociedade, a pandemia foi um momento de resiliência e encontro com a arte e a literatura. Quantas lives musicais permitiram que a/o cidadã/o pudesse estar com seus artistas preferidos na sala de casa? Quantas/os amigas/os se reconectaram através de grupos de leitura de livros? Quantas pessoas curiosas não tiveram a oportunidade de conhecer museus (algo tão distante de nossa realidade) em sessões on-line? Quantos familiares não se permitiram sorrir com os filmes de comédias nacionais (e aqui não posso ignorar a grande perda do artista e ser humano que foi Paulo Gustavo, morto em decorrência da covid num período em que outros países já estavam vacinando pessoas acima de 40 anos).

Se por um lado temos pessoas que acreditam no saber construído pela ciência e apostam suas fichas na eficácia da vacina, no conhecimento dos especialistas e doutos, por outro, temos a efervescência negacionista dos ignorantes nas redes sociais que, por meio de uma culpabilização do pecado ou da força sádica do medo, bravejam desinformações sobre a “vaCHina”: virarás jacaré!

Pois bem, prefiro acreditar na sensatez dos inteligentes que não se deixam ludibriar-se pelo “canto do asno” e lutam por suas vidas através da crença na ciência e na proteção da arte. Impossível não fazer do criminoso negacionismo uma sátira aos moldes lobatianos: se entregue à pureza das crianças e se permita interpretar a Cuca, vilã caricata do Sítio do Picapau Amarelo. Sobreviva ao negacionismo da ciência e à censura à arte!

Enquanto estamos à espera de vacinas para salvar nossas vidas, nos seguramos na arte para manter nossa sanidade e força, além de elaborarmos nossas críticas ao descaso que vivemos na condução da pandemia no Brasil. Alguns querem aumentar o número de armas e diminuir o acesso ao livro, mas faremos do livro o nosso escudo. A história já nos mostrou que nunca venceremos o ignorante com ignorância. Que eles sejam asfalto, pois nós seremos rosa solitária que irá brotar no meio da aridez asfáltica e com a união de todas as rosas voltaremos a ser um belo jardim!

*Venha conhecer mais*

A literatura e a formação do homem – Antonio Candido

CANDIDO, Antonio. A literatura e a formação do homem. Ciência e cultura, v. 24, n. 9, p. 803-809, 1972.

Manifesto ABRELIVROS

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