É na luta que o povo se encontra

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Atos Fora Bolsonaro de 29 de maio no Brasil demonstraram início do fim de uma era de morte

Seu Clóvis tem 83 anos e é daqueles brasileiros que nunca desistem de lutar por um país menos desigual. Preto, com rosto quilombola, rugas de muita história para contar e sotaque do nosso bom e gigante Pernambuco, andava ontem pelas rua do Recife, na primeira grande manifestação durante a pandemia, pelo impeachment de Jair Messias Bolsonaro, com bandeira e camiseta vermelha, símbolos que passaram a carregar significado de verdadeira repulsa para apoiadores do Presidente da República, pelo menos, desde que, a ex-presidenta Dilma Rousseff perdeu seu mandato. 

As imagens da vereadora petista Liana Cirne sendo agredida com spray de pimenta no rosto por policiais correram o mundo. E lá estava o S. Clóvis, vindo de Jardim Brasil, bairro de Olinda, no meio daquilo que o deixou, como diria Gil do Vigor, tão “indignado!”, que até mesmo, sem que o fotógrafo da Inédita Brasil, PH Reinaux perguntasse, já se ouve um “poxa vida, o Recife está cinzento de fumaça de bomba jogada pelo governador, não é possível que tenha sido outra pessoa!” 

O fato é que Clóvis não está sozinho nessa. Milhares de outros brasileiros que foram às ruas, neste 29 de maio de 2021, data histórica para o país, continuam construindo essa persona sobre muitos prefeitos e governadores de toda a federação. É descaso atrás de descaso, antes e agora durante a pandemia de COVID-19. É indescritível o desrespeito contra um povo que só quer coisas muito simples: vacina, comida no prato e afeto, mas recebe agressão, política de morte e bala de borracha no olho, como foi o caso de Daniel Campelo, um trabalhador pernambucano que passava pelas ruas durante a manifestação para comprar materiais para o seu trabalho de adesivagem de carros. 

Daniel Campelo perdeu o olho esquerdo. E neste domingo (30), enquanto escrevíamos o texto, ele estava sendo operado na tentativa de não perder o globo ocular. Resultado da emboscada contra manifestantes que a Polícia Militar do Recife organizou ontem. 

Carol Vergolino, articuladora da Inédita e co-deputada das Juntas (PSOL) logo cedo passou a rever as imagens de ontem. “Não fiquei até o fim do ato porque precisava pegar meu filho. O ato estava lindo, com distanciamento, todos de máscara. Eu não fui pra rua porque quis, eu fui porque precisava. Não vou ao bar, nem ao restaurante. Só saio para o estritamente necessário, tenho esse privilégio. Olhem o levante no Chile, Colômbia, Estados Unidos e tantos outros. Não tem mudança política nem social com um povo calado ou em rede social. Nunca houve, jamais haverá. Então eu estou na rua pelos que diariamente lotam os ônibus ou pelas 99% de mulheres que perderam os empregos formais no Pernambuco, ou mulheres grávidas que morreram de COVID, sem nem ter acesso a oxigênio ou leito de UTI, pelo fim da fome com a renda básica, pelo fim desse governo genocida. Sim, foi uma emboscada, o choque esperando o ato embaixo da ponte com armas na mão. Nessa mesma hora, o secretário de segurança estava reunido, ao vivo, na TV, com os monitores apontados para Boa Viagem. Ninguém estava vendo o que estava acontecendo no centro do Recife? Se ninguém autorizou, porque o massacre não parou? Se o Governo do Estado não autorizou quem autorizou?” Desabafa, Carol

Ainda ontem, diversos parlamentares do PSOL e do PT, junto com advogadas populares passaram a tarde na Central de Flagrantes, no Recife, para apoiar a liberdade de quatro pessoas que foram detidas. De novo: quatro pessoas negras, sendo três delas, que estavam no protesto e um pai de família, trabalhador e entregador de aplicativo que estava indo pegar um presente para os filhos. Parlamentares do PDT também se manifestaram nas redes sociais. 

Foto: PH Reinaux

A realidade é que não há como aceitar apenas o afastamento do comando da desastrosa operação. Outro articulador dessa rede, Leandro Prior que também é policial militar no Estado de São Paulo disse que a ação foi “completamente partidária e parcial. A forma como é aplicado o programa de policiamento de manifestações é um termômetro do modo do Estado respeitar os direitos constitucionais de um povo. Se policiais não toleram a divergência, batem, atiram e jogam bomba como se no cio estivessem, como será afinal o atendimento a essas mesmas pessoas em outras situações, como nos hospitais, escolas, comércios? Penso que trata-se de uma estética fascista, ou seja, por terem todas as corporações policiais sido criadas, no molde e nos padrões do exército, esses policiais não enxergam os manifestantes como cidadãos exercendo seus direitos, mas sim, como algo a ser combatido ou neutralizado. Não podemos mais engolir goela a baixo ou reto acima, o instrumento do afastamento como sendo uma punição.”

Foto: Lucas Porto

Jornais e redes de televisão insistiram em ignorar o que aconteceu ontem, em todos os estados do país. Então, se não for notícia dizer que a hashtag #29MForaBolsonaro foi, por muitas horas, o assunto mais comentado no Twitter mundialmente, com 202 mil perfis participantes e 1.808.048 postagens, ou que, os atos presenciais ocorreram em 231 cidades, só no Brasil, 14 cidades no exterior, com mais de 420 mil pessoas nas ruas, ficamos realmente liberados para fazer qualquer juízo de valor sobre essas empresas. Sim, porque a única coisa que parece importar para elas é o que vão pensar seus acionistas e patrocinadores. Já veículos internacionais cederam seus espaços para mostrar todas as mobilizações. 

Foto: Gui Frodu

Em São Paulo, no ato iniciado na Avenida Paulista, o povo tentou a todo o instante fazer distanciamento social, mesmo com 80 mil pessoas nas ruas. Tamires Sampaio, outra articuladora da inédita, disse que viu em São Paulo, “uma reação de um povo que não vai aguentar calado essa política de morte que impera no governo genocida. Fomos às ruas com máscara, álcool em gel, lembrando a importância de tentar manter distância. Vi uma manifestação em defesa da vida, contra o genocídio. Uma demonstração de força popular contra Bolsonaro.” 

Foto: Caio Chagas

Matheus Alves, um de nossos fotógrafos, trouxe um momento ímpar durante o ato em SP. “Na Rua da Consolação, estranhei a quantidade de PMs acompanhando o ato, só ali, havia cerca de 50 policiais que fecharam a rua em linha, quando um motoboy parou para esperar o momento de liberação da via. Nesse instante, o trabalhador avistou a manifestação lá longe e começou a gritar “Lula presidente!” Ele olhou bem dentro dos meus olhos e cerrou os punhos. Pensei, é sobre isso!” 

Foto: Matheus Alves

É pessoal, lamentamos muito por uma população que clamando por coisas tão simples, tenha sofrido tantas violências nas ruas, mas ao mesmo tempo, é realmente na luta que o povo se encontra. Por isso, ontem vimos o início do fim de uma era que tende a crescer mais e mais, mesmo temendo a maior pandemia que o mundo já viu. Quem valoriza a vida, não vai deixar de sair às ruas quando o governo é tão letal quanto o vírus. 

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