A vida de Mirtes sem Miguel

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Por: Carol Vergolino


Ela corre. Ela sai com um grupo e corre na BR 232. Alguma dose de endorfina pra aliviar uma dor que não tem remédio. Perder um filho é a dor indizível, é o oco que nunca vai completar. Não ter mais o filho e, ainda assim, ter que viver. Administrar uma raiva, talvez no tamanho da dor, pelo abandono da patroa. O abandono da cor. De ser preta, de seu filho ser preto e, justo por isso, parecer de menor valia.

Ela é Mirtes. mãe de Miguel. Ela era trabalhadora doméstica na casa de Sari Corte Real, não teve direito a isolamento social durante a pandemia e precisou ir trabalhar. Como não tinha creche nem escola, tudo fechado por conta da pandemia precisou levar seu filho para o trabalho. Muitas mulheres negras não tem creche nem escola para deixar seu filho, mesmo sem pandemia. A patroa estava fazendo as unhas, Mirtes levou o cachorro da patroa para passear, deixando seu filho, seu único filho, aos cuidados de Sari. Miguel foi procurar a mãe, ele só queria a mãe dele. Sari abandona o menino no elevador, ele sai do elevador sozinho e cai da altura do 9o. Andar do prédio, 35 metros.

Mirtes volta do passeio e encontra o corpo do filho no chão do prédio. Ainda com vida. Miguel, de Mirtes, no chão agonizando. Vimos em rede nacional essas imagens. Mirtes dança, finca os pés repetidamente no chão. Uma dança de dor  e desespero. Quando revejo essas cenas sinto tudo ampliado, a dor gigante que faz com que Mirtes precise se agigantar. Um sentimento de que não pode mais, não pode tanto racismo, tanta desumanização das pessoas e crianças pretas.

Mirtes é gigante. Sempre foi. Mirtes teve o irmão assassinado pela polícia. Marta, mãe de Mirtes, sabe bem a dor da perda. Mas Mirtes talvez não quisesse ser tão gigante. Talvez ela desejasse apenas viver uma vida boa. Uma vida com água na periferia, moradia, trabalho digno, brincar com seu filho, se arrumar bonita, fazer fantasia e ir pro carnaval e voltar inteira dele.

Mas a opressão sobre a pele preta não deixa. Tem que se agigantar pra cobrar justiça. Justiça por Miguel. Mas não só por ele e sim por todas as crianças pretas. Ela corre, corre pra pedir justiça de forma mais célere, ela articula com movimentos sociais que a apoiam, ela resolve fazer faculdade de Direito, ela articula internacionalmente, ela luta pra se por de pé. Não ter mais o filho único e ter que viver. Que seja viver para combater o racismo, combater todas as injustiças que criam diariamente diversas Mirtes.

A Justiça, branca que é, seletiva, anda a passos lentos. A Justiça, branca que é, colheu depoimento de testemunha sem a presença dos assistentes de acusação, o que é inconstitucional. Miguel é Silva, Sari é Corte Real. A justiça parece negritar sempre essa diferença.

Mas a realeza não contava com Mirtes e Marta, nem com todos os movimentos sociais negros, antirracistas, feministas, nem com artistas, nem com parlamentares, nem com essa indignação que brota da dor diária do racismo sistêmico, do racismo que mata. Contar a história de Mirtes e Miguel, é também ecoar a voz da luta antirracista. Pedir justiça por Miguel é também pedir justiça pela vida de tantas e tantas crianças negras no nosso país.


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