O “Bom Crioulo”: sobreviver ao racismo e ao amor

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Por: Natanael Duarte de Azevedo

A coluna “FalArte” traz nesse mês de junho a pauta da arte e a sua relação com o mês do Orgulho LGBTQIA+. O evento do Orgulho toma junho como um marco histórico-temporal a partir da narrativa construída em torno da revolta de Stonewall em 28 de junho de 1969. Tal revolta está centrada na resistência e luta da comunidade LGBTQIA+ contra os abusos de poder, exploração sexual e violência por parte dos policiais norte-americanos em Manhattan.

Volto nas dobras do tempo para apresentar o romance “Bom Crioulo” com o intuito de demostrar a necessidade de interseccionar a nossa leitura do mês do Orgulho. Para isso, me desloco do norte global e trago a discussão para parte abaixo da linha do Equador e ressalto que tão importante como entender o lugar que é dado a esses corpos dissidentes, é compreender que a luta não é de amor, mas de sobrevivência. Aqui já aproveito e deixo a indicação do texto da Rita Von Hunt (@rita_von_hunty) para Carta Capital, intitulado “O Orgulho LGBTQIA+ não é sobre amor, nem sobre consumo. O que estamos de fato celebrando?”.

Adolfo Caminha, um jovem escritor cearense, decide publicar em 1895 o seu romance naturalista “Bom Crioulo”. A narrativa apresenta a persona do bom escravo, forte, pronto para trabalhos de toda ordem, mas também servil e ciente do lugar social que ocupa em sua comunidade.

Amaro, o Bom Crioulo, é um escravo foragido que encontra a tão sonhada liberdade servindo à Marinha, mesmo sendo submetido a castigos e humilhações. Mas para Amaro nada era pior que a condição de escravo nas fazendas. O discurso abolicionista presente na obra fica evidente na luta de Amaro pela sobrevivência e as poucas oportunidades de liberdade que ele tem ao embarcar na corveta.

O Bom Crioulo traz em si três estigmas da representação do corpo masculino negro no Brasil de Oitocentos (mas que ainda encontra reverberações na atualidade): a animalidade e/ou a falta de humanidade (“O negro parecia uma fera desencarcerada: fazia todo mundo fugir, marinheiros e homens da praia, porque ninguém estava para sofrer uma agressão…” (CAMINHA, 1995, s/p)); a objetificação sexualizada do corpo negro (“Não havia osso naquele corpo de gigante: o peito largo e rijo, os braços, o ventre, os quadris, as pernas, formavam um conjunto respeitável de músculos, dando uma ideia de força física sobre-humana, dominando a maruja, que sorria boquiaberta diante do negro.” (CAMINHA, 1995, s/p)); a servidão (“Amaro soube ganhar logo a afeição dos oficiais […] no fim de alguns meses, todos eram de parecer que ‘o negro dava para gente’” (CAMINHA, 1995, s/p)).

O romance “Bom Crioulo” inaugura na literatura brasileira o primeiro romance protagonizado por um personagem negro e homossexual. A ruptura dos “bons costumes” tupiniquins, aos moldes da “família tradicional brasileira”, gerou muita indignação entre os críticos e leitores de Oitocentos:

Eu só teria dois meios de tratar deste livro: ou arrasá-lo com a descompostura mais severa, mais indignada, mais flamívoma que jamais se tenha desencadeado contra um livro imundo, ou escrever simplesmente as duas ou três linhas seguintes: ‘Do livro Bom Crioulo, do Sr. Adolfo Caminha, nada direi, por julgá-lo indigno de que com ele se ocupe uma pena honrada. (A Notícia, 22/11/1895)

Ou ainda: “O Bom Crioulo é antipático, repugnante, nojento, de uma crueza violenta e descarnada; mas tem páginas de mão de mestre. Não é, por certo, qualquer que as escreve assim.” (Gazeta de Petrópolis, 22/04/1897).

Surge então uma provocação: “Bom Crioulo” gerou repugnância por ser um romance gay ou por ter como protagonista um personagem negro e gay que se envolve sexualmente com o jovem Aleixo descrito como: “um belo marinheirito de olhos azuis, muito querido por todos e de quem diziam-se ‘coisas’.”?

Não podemos esquecer que Caminha decidiu enfrentar os tabus de uma sociedade marcada pelo patriarcado e pelo racismo. Assim, é inevitável encontrar possíveis leituras de expressões racistas e lgbtqia+fóbicas se desconsiderarmos o contexto de lançamento e circulação da obra de Caminha.

É curioso atentarmos para ousadia do escritor brasileiro, pois, em 1895, ano da publicação do romance “Bom Crioulo”, Oscar Wild tinha sido preso por “indecência flagrante”, ou melhor, atos imorais com outros rapazes, e mesmo assim Adolfo Caminha fez circular nas livrarias de todo o Brasil o seu romance que narra os desejos, amores, ciúme e vingança a partir de uma relação homoafetiva inter-racial.

Por que é preciso ler a obra numa perspectiva interseccional de um personagem preto, pobre e homossexual que sofre a esteriotipação de uma sociedade que exalta a Tradição? Por que a Amaro cabem todos os infortúnios e a Aleixo uma ascensão do trabalho na corveta, sendo admirado por todos no convés?

Não à toa a atmosfera boêmia, periférica, marginalizada ganho novos contornos a partir da presença de Amaro protagonizando esse romance. Nesse sentido, o eixo interseccional gênero-classe-raça se faz presente na descrição de seus vícios, na brutalidade de seu corpo, nos desejos animalescos e na violência quando maneja sua navalha. Já Aleixo é representado pela jovialidade, beleza, virgindade, amadurecimento que aos poucos vão o tornando um homem cada vez mais envolvente.

Ora, tem um vetor central na caracterização de Amaro: o racismo! Mas o racismo é cruzado pelo eixo da homofobia, trazendo para matriz da construção da personagem outros marcadores sociais que caracterizam Amaro como um indivíduo que traz em suas intersecções as marcas de discriminação que o constituem e que o levam ao final trágico: sobreviver ao amor com a morte do traidor.

A construção do protagonista, ancorada nas marcas de discriminação, fica reforçada no final da narrativa ao revelar o lugar invisibilizado de Amaro: após matar Aleixo na Rua da Misericórdia, rodeado de curiosos voyeurísticos da tragédia alheia, a atenção se volta para o corpo branco de Aleixo, tingido de vermelho sangue, enquanto Amaro é relegado ao esquecimento: “Ninguém se importava com o “o outro”, com o negro, que lá ia, rua abaixo, triste e desolado, entre as baionetas, à luz quente da manhã: todos, porém, queriam “ver o cadáver”, analisar o ferimento, meter o nariz na chaga…” (CAMINHA, 1995, s/p).

O “Bom Crioulo” não é uma história de amor, mas uma narrativa de sobrevivência: SOBREVIVER à escravidão, à pobreza, à exclusão social, à doença, à traição, à solidão, ao racismo e ao amor!

*Venha conhecer mais*

CAMINHA, Alfredo. Bom crioulo. São Paulo: Ática, 1995. Disponível acessando aqui.

Rita Von Hunt: “O Orgulho LGBTQIA+ não é sobre amor, nem sobre consumo. O que estamos de fato celebrando?”. Disponível acessando aqui.

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