LÁZARO, o que ele representa sobre o Brasil?

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1️⃣ Um Estado incapaz de controlar, responsabilizar e ressocializar dentro da lei e humanamente. Lázaro esteve preso por algumas vezes. Fugiu devido à precariedade estrutural e humana do sistema prisional, que se revela também na falta de oportunidades em educação, trabalho e saúde mental, que não foram garantidas nem a ele, nem à maioria dos quase 1 milhão de encarcerados no Brasil.

2️⃣ A hipocrisia armamentista da extrema direita. Se as armas usadas por Lázaro durante sua fuga foram roubadas de fazendeiros e se, com elas em mãos, ele agia com extrema violência contra chacareiros e contra policiais fortemente armados, seria correto concluir que mais armas resolverão nossos problemas?

3️⃣ O mofo oportunista representado por Magda Mofatto, Pastor Izidoro, Sargento Fahur e outras caricaturas da política atual que, a um só tempo, desmerecerem o trabalho da polícia, incitam a violência e colocam a vergonha alheia no centro do palco midiático-político-policial.

4️⃣ Um Estado incapaz de dar respostas que demandam investigação e persecução mais sofisticada. Lázaro estava matando a serviço de alguém? Quem? Por qual motivo? Inquiri-lo, questioná-lo, processá-lo e puni-lo dentro do figurino do Estado de Direito representaria maturidade institucional e seria eficiente para gerar um acúmulo informacional que auxiliaria na compreensão dessas mentalidades em outros casos parecidos.

5️⃣ Um Estado que atua fora da legalidade, sem controle popular ou de quaisquer outras instituições. “Constituição Federal”, “Devido Processo Legal” e “Controle da Atividade Policial” são símbolos precários, figurativos e seletivos. Vimos policiais matando um deficiente mental no Maranhão porque havia feito uma postagem pró-Lázaro. Agora, no ato final da morte de Lázaro, assistimos a não-preservação da cena onde teria ocorrido o confronto, como manda a lei. Por que não se chamou a perícia ou polícia técnico-científica? Por que 50 tiros? Por que expor o corpo como um animal? O Estado não deveria se reduzir à baixeza de se autoafirmar na necessidade de um corpo-troféu.

6️⃣ A urgência de humanização e controle democrático da mídia, corresponsável pela violência. Por influência dela, chacareiros distantes do local do crime abandonaram suas casas e afazeres por um medo desmedido; por intervenção dela pessoas foram violentadas ao serem confundidas com Lázaro: um cantor sertanejo, um agricultor e a própria família do criminoso, que vem sendo perseguida e ameaçada.

7️⃣ O racismo estrutural da sociedade concretizado na difamação, satanização e perseguição a lideranças religiosas e invasão de templos de matriz africana (racismo reproduzido pela mídia e por representantes estatais);

8️⃣ Um Estado cuja passionalidade é comandada pelas redações de jornais e TVs sensacionalistas. A rápida criação de um “Disque-Lázaro” – quando há décadas luta-se por um “Disque Direitos Humanos”, “SOS LGBT”, “Disque Racismo” ou outros números emergenciais para proteção a grupos vulneráveis – reafirma que quem manda mesmo não é o governador, nem seus comandantes, mas a mídia sedenta por sangue.

9️⃣ A falta de unidade de comando e carência legislativa que resolva conflitos na arquitetura organizativa das policias. Restou evidente que quando as polícias atuam conjuntamente em casos como esse vive-se um infindável “bate-cabeça”. Colegas policiais me relataram que desde o início da operação havia “muito cacique para pouco índio”. Não sabiam quem mandava: o Ministério da Justiça, a PF, o governador de Goiás ou do DF, o Delegado X, o Comandante Y… Não há lei no país que regulamente esse tipo de conflito, porque a legislação sobre segurança pública no Brasil é fruto de heranças casuísticas e autoritárias e não da racionalidade.

🔟 Vivemos uma sociedade pré-jurídica, hipócrita e preguiçosa. O Estado brasileiro é apenas a concretização de tudo isso. “Amar ao próximo”, “Perdoar 70 vezes 7”, “Constituição Federal”, “Dignidade Humana” são mitos operacionalizados seletivamente. Matar, na nossa preguiça institucional e vontade primitiva de vingança, será sempre mais fácil que responsabilizar e desenvolver políticas públicas.

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