“A HISTÓRIA DA ETERNIDADE” OU A POÉTICA DO DESEJO: A DESAUTOMATIZAÇÃO PELA ARTE

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 Por: Natanael Duarte de Azevedo

A coluna de hoje vai tratar do tema do desejo no filme “A história da eternidade”, de Camilo Cavalcante. Para além da temática sertaneja e patriarcal, chamou a minha atenção a presença marcante do desejo que circula os núcleos principais do longa-metragem: Alfonsina e João; Querência; Dona das Dores.

Confesso de início que é difícil pensar tecnicamente sobre um filme que tem em seu elenco atrizes e atores que você admira, mas tentarei seguir pelo caminho que norteia o filme: o desejo que nos move. Sendo assim, justifico desde já que posso ser tomado pelos sentimentos pessoais que me motivaram a pensar sobre “A história da eternidade”. Gostaria de destacar alguns pontos acerca da atuação no filme. Muito já foi falado sobre o brilhantismo do elenco, mas seguirei um caminho diferente: a poesia e o desejo.

 Em “A história da eternidade”, Dona das Dores (Zezita Matos) transforma em poesia a imagem do desejo, ou melhor, da castração de um desejo. É um sentimento que não cessa de advir e para isso a solução é a punição. Cena brilhante a da flagelação, com a delicadeza de não calar o desejo, mas de fazê-lo se destacar a cada chicotada, além da sutileza do banho que tenta purificar a alma e aplacar o desejo, mas instiga o telespectador por dois vieses da escopofilia: a) desejamos mais marcas da flagelação; b) desejamos ver objetificada aquela avó que (re)vela sua sexualidade silenciada, mas nunca morta.

Vemos em seguida a polissemia da cena da amamentação. O mesmo seio que nutre e constrói o laço materno é também o seio que erotiza e seduz o homem. A mitologia já demonstrou que o seio corrompe o indivíduo por meio do desejo. Basta lembrarmo-nos de Afrodite que mostra seu seio como forma de chantagear o jovem Paris no julgamento imposto por Éris, a Deusa da Discórdia. Depois temos a morte do neto, que mais se parece com a morte do pecado, uma vez que ao dar o seio para o neto, a avó materializa o desejo que surge como poesia e encerra sua trajetória no leito de morte. Por fim, a ressignificação do desejo. O elo interrompido, mas nunca ceifado! Daí a pureza de um gesto de cumprimento e uma vestimenta alva como a consciência.

 Em “A história da eternidade”, Querência (Marcélia Cartaxo) transforma em poesia a imagem da perda, ou melhor, do objeto de desejo que foi perdido. A dor de quem perde um ente querido é representada pela atriz com a contenção do gesto, a contenção da emoção, o desespero e a solidão que não vêm no grito ou nos gestos bruscos, mas na minuciosidade dos trejeitos e na grandiosidade do olhar.

O desejo sendo novamente castrado pela sociedade ou pelo preconceito, mas o seu silenciamento tem prazo de validade. Ao sair do lugar da “enlutada”, a personagem se permite descobrir que a substituição do objeto de desejo a move para vida. Vida que se materializa na maternidade, na modernidade das vestimentas e na simplicidade de um gesto de cumprimento.

Em “A história da eternidade”, Alfonsina (Débora Ingrid) faz do desejo em conhecer o mar o seu elo com a liberdade, a descoberta da sexualidade e o fim da mocidade. Da jovem que serve a comida do pai e irmãos, servil e fiel à estrutura patriarcal que lhe tolhia os desejos, Alfonsina desbrava em seu íntimo todas as ondas que não conheceu e no barulho das ondas, represadas na concha do mar, encontra em seu íntimo o tão sonhado objeto de desejo.

 No espelho da vida, frente à seca do sertão, Alfonsina acessa a infinidade do azul do mar e de seu desejo, espanando os pensamentos da mente e se deixando refletir no espelho gigante do infinito desejo pelo beijo roubado, mas não consumado. Ao encerrar a triangulação da desaumotização da vida, no gesto de cumprimento, através do vermelho da morte e da paixão, Alfonsina se vê no seu refúgio de amor nas lembranças das ondas do A-mar.

Em “A história da eternidade”, João (Irandhir Santos) transforma em poesia a imagem da liberdade, ou melhor, a sublimação do desejo. Transformar em arte tudo o que move o personagem, tudo o que busca o sujeito desejante. É o mar, a arte, a música, “fala”, é a luta incessante em encontrar seu objeto de desejo. É o amor da sobrinha ou a castração do incesto? É a transformação do abjeto em sublime. É a somatização da epilepsia, um corpo em controle que nega o autocontrole. É desejo por todo corpo, por todo ato, por toda encenação. É poesia sexualizada no gesto de carinho, na apresentação do mar, na chuva que lava e leva o desejo a se concretizar.

Na ruptura da linearidade da vida cotidiana, João é a arte disruptiva, a arte intransigente, a arte resistente, a arte que não silencia!

Por fim, em “A história da eternidade”, Camilo Cavalcante transforma em poesia o cinema nacional, transporta-nos na abertura do filme para a aridez de Abbas Kiarostami, instiga-nos com a ilusão de uma dicotomia entre a luz a escuridão, mas nos presenteia, por fim, com a dialética da sombra… ou do sombreamento do desejo. Apresenta-nos o (re)conhecimento do desejo e faz aflorar em uma triangulação de acenos a ressignificação do objeto de desejo de cada personagem.

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Venha conhecer mais

A História da Eternidade. Dirigido por Camilo Cavalcante; produzido por Pureza Filmes. Brasil: Pureza Filmes, 2014. 1 DVD.

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