“Uma academia de roça” ou uma gestão no cercadinho: caminhos da literatura para reflexão

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Por: Natanael Duarte de Azevedo

Quando reflito sobre a vida e, principalmente, sobre o atual cenário sócio-político-histórico do Brasil, recorro à literatura, mas ela não me aparece como um lugar de fuga, muito pelo contrário. A literatura me remete ao que mais de humano nós temos: a memória e o poder de mudar as coisas! Nessa perspectiva, é inegável o papel que a reflexão de Antonio Candido me provocou desde a minha graduação em Letras na Universidade Federal da Paraíba: a literatura “humaniza no sentido profundo, porque faz viver”!

Para tais reflexões ancoradas na literatura, não assumo o lugar de fala do pesquisador doutor em literatura, mas me coloco nesse momento como um indivíduo que tenta entender os movimentos do presente, ligando-os ao nosso passado, e tentando prospectar o que poderemos ter no futuro.

É estarrecedor acompanhar o crescimento de números de mortes de amigos, parentes e amores. São mais de 500 mil nomes e não números! Mais assustador é ver que milhares de mortes poderiam ter sido evitadas se tivessem iniciado o processo de negociações de vacinas ainda em 2020 (SIM, estamos morrendo por uma doença que já tem VACINA!).

Acompanhar as descobertas da CPI da Covid e confirmar que a estrutura de gestão do Ministério da Saúde e dos membros que protagonizam os acordos de compras e importações de vacinas, compostos por quadros e formações no mínimo questionáveis, levou-me a leitura do conto “Uma academia de roça”, de Lima Barreto, escrito no início do século XX.

Vamos entender um pouco esse caminho que tracei para refletir sobre o cenário sócio-político-histórico do país a partir do conto de Lima Barreto: em “Uma academia de roça”, um grupo seleto de moradores da cidade de Itaçaraí se reunia na botica, uma farmácia, do Sr. Segadas, e lá, todas as tardes, divagavam sobre literatura, arte e filosofia.

O tal grupo seleto era composto por “ilustres” habitantes: doutor Aristogen Tebano das Verdades (promotor público), doutor Joaquim Petronilho (médico clínico), Sebastião Canindé (sacristão da igreja matriz da cidade), doutor Francisco Carlos Kauffman, um cidadão austríaco (alveitar de uma grande fazenda, ou seja, um cuidador de doenças de animais sem ser formado em veterinária), o espanhol Santiago Ximénez (principal barbeiro local), além do Sr. Segadas (dono da farmácia).

Os ilustres habitantes, em uma de suas tertúlias, decidem fundar a Academia de Letras da cidade com quarenta membros imortais (algo megalomaníaco para um pequeno lugarejo). Então, imbuídos do desejo de criar a Academia de Letras, cogitam convidar outros habitantes de equivalente prestígio: doutor Penido Veiga (representante na Câmara Federal), o tenente Barnabé (recém-formado no curso de aviação), Jesuíno (concursado do Tribunal de Contas e filho do dono do armazém) etc.

E assim se funda a Academia de Letras de Itaçaraí em uma cerimônia com todas as pompas, realizada no picadeiro de um circo de cavalinhos. É evidente que os imortais ilustres tomaram seus assentos no centro do picadeiro ao redor de uma longa mesa, enquanto o “povo miúdo” assistia à cerimônia das arquibancadas.

O presidente da Academia, o Aristogen, com um discurso cheio de “fraseado bonito” que, em boa parte, o público “mal compreendia”, dá andamento à inauguração da Academia, sendo elogiado por seus “colegas imortais” e comparado a escritores reconhecidos do século XIX. Assim que Aristogen acaba o discurso de abertura, “no exato momento em que acabava a sua oração, os cavalos do circo, livrando-se das prisões que os subjugavam”, invadem a arena do circo e expulsam os acadêmicos… e “nunca mais a Academia de Letras de Itaçarai se reuniu”.

Para além do estudo da crítica literária barretiana que se volta para a acidez do autor aos imortais da Academia Brasileira de Letras, ou do abandono da retórica e a busca por uma linguagem mais simples, ou a crítica ao eruditismo vigente na transição do século XIX para o século XX, ou as características pré-modernistas presentes na poética de Lima Barreto, farei o percurso do retorno de significantes que me levaram à leitura do conto de Lima Barreto.

Seria possível imaginarmos, numa livre adaptação do conto de Barreto, a criação de um Ministério composto por militares especialistas em logísticas, pastores à frente da negociação, compra e venda de vacina, policiais militares representantes de farmacêuticas multinacionais, congressistas articuladores dessas negociações e conselheiros negacionistas da ciência, intervindo nas políticas de saúde em um contexto de pandemia? Ah, alguns médicos também envolvidos, mas nenhum infectologista em uma posição de poder frente à maior pandemia do século causada por infecção viral.

A fundação não seria num circo, poderia ser num cercadinho. O discurso seria tomado de bravatas, pronunciado em “linguagem castigada”, como disse Lima Barreto em seu conto, e eu fico preso à literatura, esperando os cavalos do circo livres “das prisões que os subjugavam”, expulsarem os “ilustres habitantes desse lugarejo”.

É, mestre Antonio Candido, a literatura “humaniza no sentido profundo, porque faz viver”!

*Venha conhecer mais*

BARRETO, Lima. Contos completos. Organização e introdução de Lilia Moritz Schwarcz. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

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