A necessária reinvenção da moda

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Por: Daiane Dultra


O mercado da moda movimenta trilhões de dólares no mundo a cada ano. Apesar de alavancar a economia, a indústria fashion é uma das mais poluentes. Da confecção do tecido até o pós-consumo, o processo produtivo todo demanda uso de solo, água, energia e produtos químicos que são nocivos ao meio ambiente. Segundo o relatório The New Textile Economy, da fundação Ellen Macarthur, 1 caminhão de têxteis são descartados a cada segundo no mundo. Em 2017, a Abit – Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção – estimou um desperdício de, pelo menos, 170 mil toneladas de resíduos têxteis no Brasil.

Além disso, a moda é o segundo setor que mais explora o trabalho escravo no mundo. De acordo com a Fundação Walk Free existem mais de 40 milhões de pessoas colocadas nessa situação, sendo 71% mulheres. Sem falar na precarização do trabalho vivenciada pelas pessoas que trabalham nas diferentes etapas da cadeia de produção, sem pagamento justo, garantia de direitos ou ambiente adequado.

E é uma teia complexa. Reinventar o mundo fashion para torná-lo justo, regenerativo e sustentável é enfrentar um sistema entranhado de vícios e que para que a transformação ocorra, é preciso uma mudança em grande escala, mas que envolve todas e todos. Sim! Como é produzida a fibra? Quem são as pessoas que trabalham na produção? Quantos litros de água são gastos para cada roupa criada? Quantas toneladas de lixo são produzidas? São perguntas que precisamos nos fazer e fazer a indústria da moda como um todo. O sistema produtivo precisa ser repensado, os modelos de negócios que, em sua maioria, são estruturados a partir de uma lógica da mercantilização dos produtos precisam ser substituídos por novos formatos e produtos que se reinventem e busquem alternativas viáveis e possíveis.

O que acontece é que a transição de um sistema linear para um sistema circular da moda é um grande desafio e a movimentação do setor, apesar de ser maior do que anos atrás, ainda é insuficiente. E o seu papel nisso tudo? Moda também é política e a forma como você consome e lida com o mundo fashion pode ser estruturante para o posicionamento de governos, empresas e a sociedade como um todo.

Iniciativas por uma moda justa e sustentável vem ganhando volume e engajando cada vez mais consumidoras e consumidores, que têm exigido atitudes positivas das marcas. Com isso, empresas que já trabalham com a moda precisam repensar seu negócio, levar a sério sua responsabilidade social corporativa, aplicando práticas regenerativas e sustentáveis reais, que se afastem de discursos falsos e práticas como o greenwashing.

Nesse momento, estamos vivendo uma efervescência de novos negócios e pequenos empreendimentos que vem emergindo e que nos convida a ousar e vivenciar uma outra experiência envolvendo o mundo fashion. Um mundo em que se valorize os circuitos curtos, a economia solidária, o apoio a iniciativas locais, práticas regenerativas e sustentáveis. É muito mais lógico, porque desloca o olhar da relação da moda com o lucro para o fortalecimento de formas autônomas de gestão dos recursos humanos e naturais, transformando todo o trabalho gerado em benefício para a sociedade como um todo. É uma maneira de reduzir desigualdades sociais e o impacto negativo da indústria da moda no meio ambiente. 

A questão que se coloca é como monitorar para que o caminho de mudança seja esse e que seja freada a movimentação de algumas empresas que se apropriam do discurso do socialmente responsável para impor o mesmo modelo mercadológico que não mais se sustenta. Para nós que consumimos, estarmos atentas e reinventarmos nossa relação com a moda pode ser um divisor de águas para que isso ocorra. Comprar dos pequenos, optar por marcas socialmente comprometidas, entender como se relacionam com as trabalhadoras e os trabalhadores e, fundamentalmente, entender que a complexidade da teia existe, mas que fazemos parte dela e que podemos contribuir para sua reinvenção .  

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