“O fogo tem a mania de queimar o que é bom e o ruim”: qual o seu lugar nesse Fahrenheit 451?

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Por: Natanael Duarte de Azevedo

Por vezes me questiono qual o grau de distopia em que nossa sociedade está inserida? Não irei me aprofundar a comparações tão possíveis nesse momento de nossa história a partir de filmes como “Jogos Vorazes” ou séries como “The Handmaid’s Tale (O conto da Aia)” e “Black Mirror”. Pensar na distopia é compreender uma sociedade imaginária que se arquiteta numa formatação opressiva, por vezes assustadora, organizada numa estrutura político-social totalitária.

Será que estamos diante de um realismo fantástico? Há uma [des]harmonia nessa relação entre realidade e fantasia? As vendas estão postas em nossos olhos e não conseguimos (ou não queremos!) enxergar nossos princípios e prioridades. Nesse sentido, opto por falar de um elemento da natureza que tem sua faceta presente no real e no imaginário: o fogo!

O fogo tem a mania de queimar. Foto: Lucas Porto/Inédita Brasil

Poderia partir do mito de Ícaro, que por ambição tem suas asas de cera queimadas pelo Sol, ou refletir sobre o mito da Fênix, que constrói uma pira funerária para renascer das cinzas.

A História também nos apresenta a insanidade e ambição na persona de Nero, marcado por vários crimes como assassinato, matricídio, traição e, o principal, a quem é atribuído um dos maiores incêndios da história antiga: Roma incinerada. Também temos a figura de Joana D’Arc, que ascende à condição de heroína e depois é queimada viva pelo crime de heresia.

Outro momento histórico que envolve o fogo é a ascensão nazista e a queima deliberada de livros, em 1933, na Opernplatz de Berlin. Arderam em chamas fulgurantes obras consideradas “degeneradas” de escritores como Freud, Marx e Engels, pois tais livros poderiam corromper o espírito e implodir os valores morais dos “homens germânicos de bem”.

A queima de livro me leva, inevitavelmente, ao romance de ficção Fahrenheit 451, de Ray Bradbury (1953), ambientado em uma sociedade distópica norte-americana, na qual o corpo de bombeiros tem o papel de defender o estado totalitário de um inimigo comum que vai corromper os valores morais e éticos da sociedade: o livro. O sucesso do romance de Bradbury é imortalizado pela adaptação fílmica de François Truffaut em 1966.

Na ficção, os livros e toda forma de escrita devem ser expurgados pelas chamas dos bombeiros incineradores, pois poderiam provocar a infelicidade e a alienação das pessoas, tornando-as um perigo para o regime do poder vigente. O temor por parte dos governantes era que a população pudesse refletir e questionar o modelo político imposto pelo estado totalitário.

Os vizinhos prontamente denunciavam qualquer atitude suspeita que levasse a crer na existência de livros escondidos em porões ou bibliotecas clandestinas. O ato de ler é um crime e, como tal, quem cometesse essa falta deveria ser punido com a prisão e ter a sua casa queimada com todos os objetos “suspeitos” que lá pudessem estar camuflados. Por ironia, no romance, as casas são à prova de fogo, uma vez que o intuito não era destruir as habitações, mas apenas os objetos considerados perigosos para sociedade. 

Em 2018, Ramin Bahrani fez a sua versão de Fahrenheit 451, protagonizado pela estrela do filme Pantera Negra, Michael B. Jordan, com algumas subversões do romance que deu origem à adaptação fílmica e trazendo para o plano central da narrativa a dominação da tecnologia e das redes sociais em nossas vidas. Mas o inimigo continuava sendo o livro e a difusão do conhecimento.

O romance de Bradbury e as respectivas adaptações de Truffaut e Bahrani seguem o mesmo caminho na representação da resistência. As pessoas comprometidas com o futuro e crentes que a opressão não seria eterna se incubem da missão de decorarem romances, contos, poesias, tratados filosóficos etc., para que num futuro próximo possam recitar tais obras para novas impressões. É o triunfo do conhecimento contra a ignorância. É o fogo que destrói, mas que faz acender a chama da renovação e da subversão de todo poder opressor. É a vitória da democracia!

Queimar livros, pinturas e filmes; incinerar o conhecimento, a história e a memória; perseguir artistas, intelectuais e jornalistas é um projeto de cerceamento do pensamento e do contraditório. É o avesso do avesso da democracia.

Por que me pergunto sobre o grau de distopia em nosso país? Por que o fogo é o objeto desta coluna? Qual o fogo que incomoda e faz você clamar por justiça? Você está do lado do fogo da redenção ou do fogo da punição e do descaso?

Roberta da Silva, mulher travesti em situação de rua, foi incinerada viva por um adolescente na cidade do Recife. Você pediu justiça ou silenciou?

Incêndio na Cinemateca Brasileira, em 2016, e no Museu Nacional, em 2018. Você pediu justiça ou silenciou?

Incêndio à estátua de Borba Gato, bandeirante que ficou marcado na história por desbravar terras e escravizar indígenas e negros vindos de África. Você acha que passou do tempo de esses “heróis” serem homenageados ou você criminaliza os ativistas antirracistas?

Novamente, em 2021, um incêndio no edifício da Cinemateca Brasileira. Um crime anunciado, após denúncia pública dos servidores da instituição, e com a irreparável perda de inúmeros documentos, equipamentos e obras da história do cinema brasileiro. Por mais que tenha sido feito o levantamento da tragédia (arquivos da Embrafilme, do Instituto Nacional do Cinema, do Conselho Nacional de Cinema, documentos do acervo de Glauber Rocha, acervo da Pandora Filmes, diversas cópias de filmes brasileiros e estrangeiros, além de documentos da própria Cinemateca), é uma parte de nossa história que é incinerada pelas chamas de um projeto político de ataque às artes e à memória sem precedentes. Perde-se parte do patrimônio histórico-cultural brasileiro e parte de nossa sociedade. Um povo sem arte, cultura e história é um povo alienado, perdido em sua própria ignorância.

E qual a sua posição: você é o bombeiro ou os homens-livro de Fahrenheit 451? Você é o fogo psicótico de Nero, ou a Fênix, imortalizada nas palavras de Fernanda Montenegro, que representa a transcendência e a resistência?

Não há mais tempo para o blefe do “poderia ser pior”. Agora é jogar suas cartas e se posicionar no jogo da democracia contra o totalitarismo!

Venha conhecer mais

Bradbury, Ray. Fahrenheit 451. Trad. Casimiro da Piedade; pref. Jaime Nogueira Pinto; posf. João Seixas. Col. Bang. Porto Salvo: Saída de Emergência, 2018.

Bahrani, Ramin, dir. Fahrenheit 451. EUA: HBO, 2018.

Manifesto dos trabalhadores da Cinemateca Brasileira sobre o incêndio na unidade da Vila Leopoldina. Disponível em: http://jornalistaslivres.org/manifesto-dos-trabalhadores-da-cinemateca-brasileira-sobre-o-incendio-na-unidade-da-vila-leopoldina/


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