Manifesto dirigido à sociedade araraquarense, em especial aos políticos e aos formadores de opinião de Araraquara

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Diante da total ausência de política nacional clara de combate à pandemia pelo governo Bolsonaro e das notícias de reabertura total das atividades econômicas no estado de São Paulo a partir do próximo dia 17 de agosto, o SISMAR – Sindicato dos Servidores Municipais de Araraquara e Região – sente-se na obrigação de alertar a todos sobre a irresponsabilidade desta medida do governador João Doria, que deve ser seguida pelo prefeito Edinho Silva em Araraquara, e dos impactos nefastos que ela trará para todos, especialmente trabalhadores.

Você não pode dizer que não sabia
A situação epidemiológica em Araraquara é crítica em relação à covid-19 e a reabertura das atividades vai aumentar casos e mortes evitáveis; quem não se opõe a isso, assume junto a responsabilidade

Durante a pandemia de Covid-19 no Brasil, o Plano São Paulo do governo do estado e os decretos municipais do prefeito Edinho Silva definem o que abre e o que fecha no estado e na cidade para controlar a transmissão da doença. Entretanto, o vírus não segue leis e decretos dos homens, segue as leis da natureza.

Alto Risco de Transmissão

O CDC norte-americano (Centers for Disease Control and Prevention) e a Fiocruz, para ficar em dois exemplos incontestáveis, adotam os indicadores de “casos por cem mil habitantes em sete dias” e “percentual de positivados”, especificando os níveis de transmissão da Covid-19 em determinada localidade de acordo com os valores de cada um deles, conforme abaixo:

O CDC, inclusive, menciona que, quando os indicadores mostrarem diferentes níveis de transmissão, deve ser considerado o maior nível.

Em Araraquara, no fim de julho (data da elaboração desta análise), estes dois indicadores estão muito acima do nível de “alta transmissão”, com “risco elevadíssimo de transmissão nas escolas”, segundo estes estudos. Vejamos:

No dia 29 de julho de 2021, tínhamos os seguintes dados (obtidos nos boletins diários da Prefeitura de Araraquara e no site mantido em parceria entre a Prefeitura e o grupo Urbie, da UfsCar):

  • Total de novos casos por 100 mil habitantes nos últimos sete dias: 211 (calcula-se a soma dos casos em sete dias, multiplicado por 100 mil e dividido pela população da cidade)
  • Percentual de positivados nos últimos 7 dias: 32%

Temos, portanto, uma situação absolutamente crítica em Araraquara, do ponto de vista do risco de transmissão do vírus que causa a doença. Os números de Araraquara, neste fim de julho, são duas ou três vezes piores do que os piores índices indicados.

Contágio pelo ar

Além destes parâmetros, a ciência também nos explica como o vírus se espalha: na maior parte das vezes é pelo ar, sempre de pessoa para pessoa. É por este motivo que aumentar a circulação de pessoas aumenta a transmissão do vírus e a restrição de circulação reduz a transmissão.

Letalidade

A matemática, por sua vez, nos permite calcular que a Covid-19 mata em média 2 a cada 100 infectados, atualmente em Araraquara, onde há leitos disponíveis e ninguém está morrendo sem atendimento. Ou seja, quanto mais gente infectada, mais mortes, mesmo com vagas nos hospitais. É a chamada letalidade do vírus, que é próxima a 2% na cidade. Se houver colapso, falta de leitos, obviamente a letalidade aumentará.

Vacinação

É verdade que o esquema completo de vacinação evita complicações e mortes por Covid-19 na maioria dos casos, mas também sabemos que menos de 25% da população de Araraquara tomou as duas doses da vacina ou a dose única.

Mortes evitáveis

Agora, vamos juntar todos os fatos apresentados para refletir:

  • o vírus se espalha mais quanto mais gente circulando;
  • dados mostram alto risco de transmissão na cidade;
  • a letalidade do vírus é de 2%;
  • a cobertura vacinal na cidade é baixa.

A reabertura, necessariamente, vai colocar mais gente circulando pela cidade. Com mais gente circulando, vai aumentar a transmissão. Com vacinação baixa, muitas pessoas vão adoecer e mais gente vai morrer. Como concordar com isso?

Alguém vai argumentar que não podemos ficar fechados para sempre, que temos que cuidar da economia, dos empregos. Mas, vamos nos acostumar com a morte de tanta gente?

Na faixa etária economicamente ativa, entre 30 e 69 anos, idade da maioria dos trabalhadores, já morreu mais gente de Covid-19 em sete meses de 2021 em Araraquara do que todas as mortes de 2019 inteiro somadas (último ano pré-pandemia).

A imagem mostra os óbitos em 2019, 2020 e 2021, de cima para baixo em cada faixa etária. As mortes por covid-19 estão em cinza.

Já sabemos que a variante Delta está entre nós, mais contagiosa e com transmissão comunitária em vários lugares do Brasil. A variante tem hospitalizado e matado, mundo a fora, principalmente as pessoas não vacinadas, inclusive afetando crianças e adolescentes. Confira a consultado da variante realizada no último dia 27/07/2021.

Do pico do Everest, tudo parece baixo

Mesmo assim, com média de mortos superior a 1.000 por dia , no Brasil tem prevalecido a ideia de que “os números estão caindo” e que esta “queda” é suficiente para a reabertura segura das atividades.

Infelizmente, como já devem ter percebido pelos números, esta não é a realidade e você já não pode mais alegar ignorância, pois os fatos estão aí expostos.

Se a comparação dos dados atuais for feita com o pior momento da pandemia, então podemos dizer que todos os indicadores caíram, mesmo. Mas, esta comparação está errada. Não se usa o maior homem do mundo como comparação para julgar se alguém é baixinho.

Do mesmo modo que consideramos alguém baixinho sempre em relação à média da altura das pessoas, sem contar anões e gigantes, a referência para comparação dos indicadores da Covid-19 deve ser a média deles ao longo da pandemia, e não os picos.

Fazendo a comparação correta, todos os indicadores em 2021 estão piores do que as médias de 2020. Ou seja, podemos não ser mais gigantes, mas estamos longe de sermos baixinhos. Vamos aos números:

Em nove meses de pandemia em 2020, tivemos 92 mortes, média de 1 a cada 3 dias. Em 2021, em sete meses, já tivemos 468 mortes, quase 7 mortes a cada 3 dias.

Somente em julho, já foram 47 óbitos por Covid-19 na cidade. Os meses com mais mortes em 2020 foram setembro e outubro, com 17 óbitos cada um. O que melhorou? Que número de mortes diminuiu? Perto do gigante, parecemos baixinhos, mas não somos.

(dados dos boletins diários da Prefeitura de Araraquara)

A letalidade média do vírus, em 2020, foi de 1,1%. Ou seja, uma morte a cada 100 contaminados. Em 2021, a letalidade média é de 2,37%, mais que o dobro de 2020. Somente considerando o mês de julho de 2021, a letalidade está em 1,87%, e a maior letalidade registrada em 2020 foi de 1,44% em setembro. O que melhorou? Que letalidade caiu?

(calculada a partir de dados dos boletins diários da Prefeitura de Araraquara)

Em 2020, o dia com mais pessoas internadas em UTI foi 10 de setembro, com 27 pessoas ocupando leitos na cidade. Dia 29 de julho, temos 54 internados em UTI. Subimos quatro degraus e descemos dois. O que melhorou?

O número de casos novos registrados na cidade também aponta no mesmo sentido. O recorde de casos novos em 2020 foi em dezembro, com 1.675 casos. Em 2021, somente um mês ficou abaixo disso, todos os outros meses tiveram mais casos do que o pior mês de 2020. Só em julho, tivemos 2512 casos. Que número caiu? O que melhorou?

(dados dos boletins diários da Prefeitura de Araraquara)

Reabrir agora é irresponsável

Estão apresentados, portanto, os dados, os fatos, os números e os parâmetros que mostram, sem qualquer possibilidade de erro, baseados em estudos nacionais e internacionais, que a pandemia em Araraquara está longe de estar controlada.

Sem controle da pandemia, não há como afirmar que haverá segurança para a reabertura de atividades econômicas.

A reabertura vai obrigar, necessariamente, que as pessoas saiam de casa para o trabalho. Em outras palavras, estarão obrigando os trabalhadores a se expor ao vírus em uma cidade com altíssimo nível de transmissão, vacinação com baixa cobertura e letalidade na casa dos 2%, mesmo com leitos à disposição nos hospitais públicos e privados.

Por tudo isso, qualquer tipo de apoio a decisões de reabertura de atividades presenciais em Araraquara neste momento, mesmo com “protocolos de segurança”, significa também compartilhar a responsabilidade por casos e mortes que venham a ocorrer.

Educação

Especificamente sobre a Educação, concordamos e desejamos muito que ela deve ser prioridade, não só na pandemia.

Como consta no documento da Unicef, de abril de 2021, as escolas deveriam ser prioridade em uma pandemia, ou seja, as últimas a fechar e as primeiras a reabrir. Consulte o documento.

Entretanto, aos afobados, alertamos que esta afirmação não é carta branca para reabertura das escolas “com protocolos”. Pelo contrário. Isto significa que bares, cinemas e demais atividades deveriam permanecer fechadas para que as escolas pudessem abrir. E por que? Porque com as demais atividades fechadas, haverá controle da pandemia para a reabertura segura das escolas. Isto seria dar prioridade à Educação.

Porém, o que vemos sendo feito no estado de São Paulo e em Araraquara é justamente o oposto: abrem-se bares, restaurantes, cinemas, praticamente ao mesmo tempo em que obrigam profissionais da Educação ao trabalho presencial. Resultado: baixíssima adesão dos pais ao retorno presencial até agora.

Mesmo apresentando menos risco de óbitos e menos complicações em função da covid-19, crianças e adolescentes são vetores de transmissão da doença tanto quanto os adultos. Confira aqui.

Reabrir as escolas em Araraquara com os atuais níveis de transmissão do vírus na cidade e com cobertura vacinal ainda baixa vai colocar não só os profissionais, mas os alunos, seus familiares e toda a cidade em risco, muitos vão se contaminar e alguns vão morrer. A pergunta é: quem?

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SISMAR – Sindicato dos Servidores Municipais de Araraquara e Região

Assinam também este manifesto:

Dr. Domingos Alves – professor associado no Departamento de Medicina Social da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, USP

Dr. Daniel Cara – professor da Faculdade de Educação da USP e dirigente da Campanha Nacional pelo Direito à Educação

Dr. Ulysses de Matos – médico infectologista do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto – US

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