Que a Rosa dos Ventos me guie nas ondas caóticas de setembro

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Por: Natanael Duarte

Setembro de um ano surreal, em um país não tão distante, grande parte da sociedade ficou atônita ao ver “a banda passar”, cantando coisas de horror… Fechem! Queimem! Eu autorizo! Voto impresso! Impeachment de Ministros do STF! Extinção do TSE! Intervenção militar! … e claro que não podia faltar a “cereja do bolo”: Brasil livre do comunismo!

​Fica cada dia mais difícil não achar que é uma distopia. E, para não perder o costume, vamos de cinema!

No mês de setembro, não tomarei uma referência de exaltação nacional. Optei por trazer à cena o filme espanhol El Bar (traduzido para Brasil como “O Bar”), dirigido por Álex de la Iglesia, que joga com o terror e a sátira político-social. 

A narrativa fílmica se passa em um simples bar situado no centro de Madri, frequentado por nativos que pretendem tomar o café da manhã sem perturbações. A calmaria é interrompida quando um dos clientes deixa o estabelecimento e, ao sair do limite da porta do bar, é alvejado com um único tiro na cabeça. Nesse momento, as aspirações comezinhas dão lugar ao pânico e a incerteza do que está acontecendo. 

No exato momento em que o direito de ir e vir é retirado dos clientes do bar, o medo e a fantasia assumem as rédeas de suas vidas numa prisão de concreto, em um ambiente familiar, mas tão desconhecido ao mesmo tempo. O próximo a sair encontrará a “bala achada”? Todos são alvos ou era uma ação pontual? Esses reféns, estranhos conhecidos, são confiáveis?  

O instinto de acolhida faz com que outro cliente deixe o recinto para tentar socorrer a primeira vítima e… lá está ela: a bala achada em plena luz do dia, no centro da capital espanhola, que vai direto ao encontro da próxima cabeça. 

Pronto! A única certeza é que, ao sair do bar, você encontra a morte. A instabilidade emocional e o medo tomam conta dos prisioneiros citadinos e, logo, surgem os devaneios: – “Será um atentado terrorista?” – “Pode ser uma ação solitária de um atirador?” – “É um castigo divino?” – “Invasão alienígena?” – “Isso será um vírus mortal?”… 

Vírus mortal é algo bem conhecido dos brasileiros. Poderíamos até acrescentar aos questionamentos fantasiosos(?) dos clientes do bar: – Serão Vikings à brasileira, com chifres de boi-gado? Pode ser uma ação solitária do Tio Sam que fez aulas de inglês no cursinho, gerenciado pelo coach farmacêutico? – Será uma provação messiânica? Mas vamos voltar ao Bar!

O filme de Iglesia discute temas essenciais que nos fazem refletir sobre o tipo de sociedade que queremos para o nosso país: questões sociais, conflitos de classe, xenofobia, desigualdade e conservadorismo social estão presentes em O Bar. Claro que com ironia e uma pitada de grotesco, uma vez que é a assinatura fílmica do diretor. 

A arquitetura do porão-esgoto como uma metáfora do rebaixamento de classe e, ao mesmo tempo, um choque de realidade mostra como os indivíduos colocam suas pautas individuais acima das pautas coletivas, mas com um grande plot twist: somos tão diferentes, mas nossa essência é bem parecida. É a representação do espelho: eu vejo um “eu” entrecortado em pedaços de um “não-eu”, não é uma realidade, mas é uma representação. Eu carrego partes desse não-eu e isso pode amedrontar. 

Eu assisto ao filme, em setembro, com aquele aperto-reflexivo (“como chegamos nessa situação?”) e me vêm versos intercalados de Chico Buarque “Do medo criou-se o trágico / No rosto pintou-se o pálido / E não rolou uma lágrima”. Há aí uma suspensão de nossas narrativas que abre portas desconhecidas e que nos instigam a resistir, pois acreditamos que “existiu certamente um vínculo entre senso de culpabilidade, inquietação e criatividade”.

A noite abre espaço para madrugada. Deixo O Bar de Iglesia e me lanço na força da voz de Bethânia: “Numa enchente amazônica / Numa explosão atlântica /E a multidão vendo em pânico / E a multidão vendo atônita / Ainda que tarde / O seu despertar”. Afinal, depois desse fatídico setembro, renascerá uma primavera em OUTUBRO!

*Venha conhecer mais*

El Bar (O Bar). Filme de Álex de la Iglesia. Disponível na plataforma de streaming Netflix. 

Maria Bethânia – “Rosa dos Ventos” (Ao Vivo) – Abraçar e Agradecer.

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